Difícil acreditar que já estamos na semana do Natal (há quem não goste, só deixem em paz o pisca-pisca). E esse clima de final de ano é bem propício para fazermos aquela reflexão sobre os nossos resultados, para colocarmos na balança os pontos positivos e negativos do estilo de vida que estamos adotando, para revisarmos a lista de metas que estabelecemos para alcançarmos ao longo do ano. E, durante esse processo de autoanálise, não é difícil percebermos o quanto temos vivido com pressa. Muitos de nós corremos para chegarmos no horário no trabalho, damos um beijo de “bom dia” com pressa, temos pressa no trânsito, tomamos o café da manhã (para alguns isso é luxo) correndo, vivemos no esquema de trabalho das 9h às 18h e, muitas vezes, conseguimos entrar às 9h, mas raramente sair às 18h, o que parece fazer com que nosso dia simplesmente evapore.
Já li inúmeras histórias de pessoas que sofreram algum tipo de acidente que ocasionou em uma deficiência adquirida, que relatam o quanto levavam uma vida completamente afundada numa rotina massacrante e fizeram mudanças radicais após tal transformação. Mas será que precisamos passar por uma experiência tão profunda para termos maturidade de valorizarmos o equilíbrio em nossas vidas?
É fácil notar que a primeira pergunta que geralmente fazemos ao conhecer alguém, muito provavelmente, é o seu nome, já é uma das coisas mais importantes que identifica quem somos. Outra pergunta seguinte é o que a pessoa faz da vida. O curioso é que, quase automaticamente, nossa resposta é baseada na nossa formação acadêmica, onde trabalhamos e qual cargo nós ocupamos. Raramente encontramos alguém que responda sobre o trabalho voluntário que realiza nos finais de semana, diz que ama ler ou escrever, que corre, é fissurada (o) em fazer atividade física com seu companheiro (a), que ajuda os amigos a planejarem suas viagens, que é cinéfilo, cozinha muito ou algo parecido. Somos treinados e treinamos nossas crianças a associar “o que queremos ser” com alguma profissão e, quase nunca, com um estilo de vida.
Confesso que a constatação do quanto isso é pouco saudável tem me inquietado desde que completei meus 30 anos. É a ideia de que tudo que decidimos de nossas vidas deve estar em prol do nosso repertório profissional: o que vestir, quais lugares frequentar, quais vinhos beber, quais viagens realizar, etc. Essa construção em torno do trabalho e do status correspondente a ele é tão enraizada que em diversas situações sequer questionamos o porquê fazemos certas escolhas. Então, não conseguimos perceber que a nossa identidade não precisa ser construída baseada em nosso trabalho.
Não estou desmerecendo o poder transformador que um ambiente de trabalho tem para nosso autoconhecimento e desenvolvimento, nem sequer serei hipócrita ao menosprezar a importância do dinheiro que é fruto do nosso trabalho. A inquietação exposta aqui é a de não ser capaz de enriquecer sua “bagagem da vida” com experiências que não estejam associadas ao seu trabalho, a depositar energia em diferentes áreas da sua vida, de modo que você não dependa que, exclusivamente, uma área esteja bem. É sobre vincular-se à rotina sem estar condenado a ela.
Muitas pessoas acham o máximo eu conseguir ter uma “vida normal”, “trabalhar tanto” e ser “tão independente”. Mas, o “máximo” mesmo é conseguir fazer “tudo isso” sem permitir que (apenas) isso me defina. Aí está o meu desafiador compromisso comigo mesma. E o de vocês?
